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12 março 2026

Grammarly e o processo judicial


No início do mês publicamos que o Grammarly estava oferecendo revisões de artigos científicos usando versões de IA de professores famosos. Assim, você submeteria seu artigo na plataforma e um famoso professor da área daria um retorno sobre o texto, usando seu estilo. Na ocasião, comparamos com os bots do Chess, que oferecem ao usuário jogar com “Carlsen”, “Nakamura” e outros jogadores famosos.

A questão é que a iniciativa do Grammarly não foi muito bem recebida. E uma das pessoas usadas como bot pelo Grammarly, a jornalista Julia Angwin (foto), resolveu entrar com uma ação por não ter autorizado o uso do seu nome. O processo movido por Angwin é uma ação coletiva e trata do uso indevido de identidade e do direito de publicidade. A empresa proprietária do Grammarly estava usando nomes e reputações profissionais para promover um serviço comercial. O usuário poderia ter a impressão de que os revisores reais apoiavam a iniciativa.

O Grammarly removeu o recurso diante das críticas e pediu desculpas. Parecia bem óbvio que a empresa sofreria um processo por usar a imagem de pessoas reais. Como ninguém da empresa percebeu o risco de um processo? O contador da empresa já deve estar preparando as estimativas de um passivo para o caso.

Como a IA irá destruir o ensino superior

No primeiro semestre de 2025, como professor de graduação de uma universidade federal, senti o impacto da inteligência artificial na minha disciplina. Há anos adotava, como critério de avaliação, um trabalho escrito. Era um diferencial, pois meus colegas ficavam nas provas escritas, participações e exercícios como forma de avaliação do conteúdo. Com o tamanho das minhas turmas, recebia de 20 a 30 trabalhos para avaliar. Para cada trabalho, duas leituras, significava que dedicava muito tempo para essa avaliação. 

Se há cinco ou dez anos minha preocupação era o plágio, que conseguia detectar razoavelmente com a leitura, a situação mudou a partir do ano passado. O uso de IA começou com redações empoladas, com muitos adjetivos e advérbios. Como o trabalho sugerido era muito específico, a IA não conseguia efetivamente ajudar na obtenção de nota. Mas intuitivamente optei por retirar o trabalho como critério de avaliação e noto hoje que foi uma decisão acertada. 

Assim como eu, outros professores universitários que gostavam de usar trabalhos escritos como critério de avaliação estão diante do grande problema chamado IA. Lendo um texto da Unherd, o autor fala de um problema existencial. Mesmo sendo exagerada a posição do autor, creio que é um grande problema. E isso é agravado pela dificuldade de reconhecer o uso da IA nas tarefas. O autor do texto citado anteriormente fala da falácia da peruca. 

Antes de comentar sobre ela, é importante destacar que os softwares de detecção de uso de IA são falhos e apresentam problemas, conforme já comentamos aqui. Diante disso, alguns docentes passaram a acreditar que tinham o poder de detectar o uso de IA nos textos. Mas as linguagens melhoram com o tempo e precisamos desconfiar disso. Acrescente que uma coisa é o aluno pedir, por meio de um prompt, um trabalho inteiro; a outra, é solicitar ajuda através de uma correção eventual no texto. 

Voltamos então a falácia da peruca, que a IA traduziu como sendo falácia do topete. Considere que eu diga que homens que usam perucas são ridículos e seria melhor que aceitassem a calvície. Um dos motivos principais é que sabemos quem está usando perucas. A questão é que estou pressupondo que consigo descobrir sempre uma peruca na cabeça de uma homem. Mas uma peruca boa é aquela que não desconfio que exista. Se consigo identificar alguém de peruca, não significa que sou capaz de descobrir todos os casos. Esse é o mesmo caso da IA: um trabalho feito de forma eficaz com IA não será identificado pelo professor. 

Quando um professor desconfia que exista IA, isso não é suficiente para reprovar, exceto nos casos que o aluno deixa rastros. Isso já aconteceu comigo, mas talvez seja uma exceção, não a regra. 

Mas esse não é o principal problema, segundo o texto da Unheard. A IA está ameaçando a forma de ensino usada em muitos cursos: a escrita. Escrever é colocar no papel as suas ideias. Quando a IA faz isso para o aluno, o seu esforço de aprender - leiam Brian Caplan sobre sinalização e educação - deixa de existir. Em outras palavras, a IA é uma ameaça direta ao processo de ensino. (Leia aqui sobre IA e escrita)

Eles [as LLMs] são uma droga de solução rápida balançada diante do nariz dos alunos, cujos efeitos reais parecem ser o atrofiamento do desenvolvimento intelectual.

Talvez a solução seja o retorno aos métodos tradicionais, reduzindo a dependência da internet.  Mas realmente isso é difícil para um ensino que hoje tem uma grande parcela feita de forma não presencial e onde espera que o aluno tenha conhecimento das principais ferramentas tecnológicas. E a gestão das universidade tem o receio de voltar a forma "primitiva", em lugar de abraçar, e afundar no lago, com a IA. 


Nota: a IA foi usada para traduzir o texto original do Unheard e fazer uma revisão, sem mudar o estilo e opinião 

Academia e democracia

Como professor universitário, tenho ouvido com frequência preocupações relacionadas à existência de possíveis vieses no ambiente acadêmico. Alguns observadores apontam a presença de tendências predominantes que, em certos contextos, podem dificultar a plena expressão de perspectivas divergentes. As iniciativas adotadas para enfrentar esse desafio têm se concentrado, em grande medida, em políticas de inclusão voltadas a determinados grupos — por exemplo, relacionadas a raça ou gênero. Trata-se de medidas importantes para ampliar a diversidade. Ainda assim, discute-se com menor frequência a diversidade de perspectivas e visões de mundo como um aspecto igualmente relevante para a vitalidade do debate acadêmico.

Não podemos deixar de lembrar do Princípio de Plank

Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus opositores e fazendo-os ver a luz, mas porque seus opositores eventualmente morrem, e cresce uma nova geração familiarizada com ela.

O artigo a seguir propõe uma reflexão sobre essa questão. Eis o resumo:

 


Este artigo defende uma tese provocativa: a saber, que a estrutura e a composição atuais da academia comprometem a legitimidade democrática. Filósofos políticos frequentemente têm enfatizado que o sufrágio universal, por si só, não é suficiente para garantir tal legitimidade. Nessas críticas, o foco costuma recair sobre o poder desproporcional dos ricos em moldar a política e o discurso público. Argumento aqui que existe um problema mais profundo e relativamente pouco percebido nessa mesma direção: o sistema universitário exerce um enorme poder ao moldar as perspectivas do público por meio de diversos mecanismos. No entanto, a academia é, para todos os efeitos práticos, democraticamente irresponsiva. Além disso, como tem sido documentado em uma série de estudos empíricos, ela é politicamente homogênea. Como resultado, sustento que esse poder assimétrico compromete a legitimidade do sistema político considerado como um todo. Isso pode ser observado a partir de três influentes concepções de legitimidade democrática: o republicanismo, o liberalismo da razão pública e as teorias do consentimento. O artigo conclui explorando alguns possíveis remédios para avançar em direção a uma maior legitimidade democrática.

Fonte: Democracy and the Academy, Hrishikesh Joshi - Philosophy & Public Affairs, forthcoming  via aqui

11 março 2026

Raizen culpa fatores incontroláveis


A Raízen, uma empresa conjunta da Cosan e Shell que atua no setor de energia e etanol, pediu recuperação extrajudicial. Segundo a informação, a dívida seria de 65 bilhões de reais. No planejamento da empresa, haverá um período de 90 dias para negociação com o capital de terceiros oneroso. Além disso, haverá um aporte de capital de 4 bilhões dos controladores.

Segundo a notícia divulgada na imprensa, o volume de dívidas, juntamente com uma taxa de juros elevada, prejuízos e investimentos inadequados, seriam os responsáveis pela crise.

A informação da Raízen ocorreu logo após o Pão de Açúcar anunciar que há dúvidas sobre a continuidade da empresa. Novamente, custo de capital alto e elevado endividamento foram as alegações para a crise.

Parece pouco crível culpar os juros. Na hora da crise, jogar a responsabilidade sobre fatores “incontroláveis” é uma estratégia comum dos gestores. Afinal, juros elevados são coerentes com o mercado brasileiro. Talvez problemas de gestão e governança sejam algo mais fácil de acreditar como sendo a maior responsabilidade aqui.

Morte anunciada da IFRS 14


Em 2014, o IASB emitiu uma norma sobre Regulatory Deferral Accounts, ou saldos de diferimento regulamentar. Desde o início, a IFRS 14, como foi numerada, foi considerada uma norma transitória, ou seja, algo que teria um término próximo quando existisse uma norma mais ampla, com foco nas empresas sujeitas à regulação tarifária.

Em muitos locais, os governos permitem que certos custos e certas receitas sejam ajustados no preço futuro dos serviços prestados aos consumidores. Tem sido comum que futuros ajustes sejam considerados como ativos ou passivos, com a denominação de regulatórios. Mas existia uma dúvida sobre se esses itens deveriam ser considerados ativos ou passivos legítimos. Há uma discussão onde alguns chegam a considerar a IFRS 14 como uma violação da Estrutura Conceitual e o fato da norma ser uma solução temporária fortalece essa visão. 

Isso não atrapalhava a filosofia da IFRS e não desmotivava a adoção das normas internacionais por esses setores ou até mesmo por países. Mas havia o interesse de que as normas fossem aplicáveis também a setores regulados.

Parece que está chegando o momento de descartar o remendo e usar uma norma específica. No comunicado, o de sempre: a norma permite melhorar a qualidade das informações para os investidores e blá-blá-blá. Basicamente, a nova norma estabelece os requisitos para reconhecer e divulgar os ativos e passivos regulatórios.

Há uma previsão de que a nova norma seja chamada de IFRS 20, e não IFRS 14 R, devendo entrar em vigor em 2029.

Imagem aqui 

10 março 2026

Desafiantes do Campeão Gukesh


No dia 29 de março terá início o torneio que irá definir o desafiante ao atual campeão, o indiano Gukesh. Novamente não teremos a presença do maior jogador de todos os tempos, o norueguês Magnus Carlsen (rating de 2840). Carlsen lidera o rating, que mede a força de um jogador, há bastante tempo e parece que cansou de fazer uma longa e cansativa preparação para disputar um título que certamente ele ganharia.

A casa de apostas Kashi aponta Caruana (2793) e Nakamura (2810) como favoritos. O descendente de família italiana Caruana já chegou a disputar o título com Carlsen, mas perdeu. O popular nas redes sociais Nakamura tem hoje o segundo maior rating, atrás de Carlsen, e é muito bom no jogo mais rápido, usado em caso de empate e útil quando está em apuro de tempo. Estão bem no ranking, mas no passado isso não foi decisivo para levar à disputa do título. Em torneios como esse, o preparo mental pode ser muito mais importante.

O próximo melhor classificado no rating é Wei Yi, com 2754, na oitava posição. São mais de 50 pontos abaixo de Nakamura e muito distante de Carlsen. No mercado de apostas, suas chances são de 7% hoje. As chances de Caruana e Nakamura são de 33% e 30%. Pensando nas apostas, logo após os americanos temos o jovem indiano Praggnanandhaa (2741), com 17%, e Sindarov (2745), com 15%. Poucos apostam no holandês Giri (2753), no russo Esipenko (2698) e no alemão Bluebaum (2698), com chances de 9%, 5% e 5%, nessa ordem. Olhando os números, os dois americanos parecem realmente bem favoritos a conquistar o direito de desafiar o campeão, como acredita o mercado.

Continuidade do GPA


Dias atrás, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) incluiu nas notas explicativas do balanço do ano passado um alerta sobre a incerteza quanto à continuidade operacional da empresa. Em situações como essa, há dúvidas se a empresa conseguirá sobreviver no futuro próximo.

A empresa tem hoje baixa liquidez, elevado endividamento e caixa reduzido. Diante disso, o GPA anunciou um pedido de recuperação extrajudicial, tentando renegociar suas dívidas. É uma medida para permitir que o GPA respire por alguns dias, mas será necessário mudar algo na estrutura para sobreviver.

O tradicional Pão de Açúcar conseguirá sobreviver?