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04 agosto 2026

Futuro da contabilidade?


Do IasPlus:

Em 1º de maio de 2026, a CPA Australia reuniu organismos emissores de normas, reguladores, investidores, acadêmicos e profissionais para discutir como os relatórios corporativos podem refletir melhor a criação de valor em um mundo cada vez mais impulsionado por softwares, dados, inteligência artificial e outros ativos intangíveis. Foi agora publicado um relatório com os principais insights do “CPA Australia Intangible Summit 2026”.

O relatório observa que, em uma economia global na qual o valor das empresas é cada vez mais determinado por dados, inteligência artificial, softwares e outras capacidades viabilizadas pela tecnologia, os relatórios financeiros tradicionais podem deixar de evidenciar importantes indicadores de criação de valor. Os participantes da conferência discutiram por que essa lacuna é relevante, como a diferença entre o valor contábil e o valor de mercado está aumentando, por que os requisitos atuais não foram concebidos considerando os ativos intangíveis gerados internamente e interconectados, e como uma melhor divulgação, desagregação e conectividade das informações poderia proporcionar dados mais úteis a investidores, elaboradores das demonstrações e outros usuários.

O relatório também apresenta diversas recomendações importantes identificadas durante a conferência.

Principais recomendações

Adoção, pelo International Accounting Standards Board (IASB), de uma abordagem gradual para aprimorar a divulgação e o reconhecimento de ativos intangíveis relacionados à tecnologia: o IASB deveria começar pelas necessidades dos usuários, pela divulgação e pela desagregação das informações, enquanto continua examinando, no longo prazo, questões de reconhecimento e mensuração relacionadas à computação em nuvem, ao software como serviço — software as a service (SaaS) —, ao desenvolvimento de softwares, aos dados e às capacidades viabilizadas pela inteligência artificial.

Priorizar melhorias na divulgação: melhorar a qualidade, a consistência e a comparabilidade das informações divulgadas sobre ativos intangíveis relacionados à tecnologia, incluindo a maneira como os investimentos sustentam os modelos de negócios, as capacidades organizacionais e os fluxos de caixa futuros.

Aprimorar a conectividade entre os relatórios financeiros, os relatórios de sustentabilidade e outros relatórios narrativos: assegurar que as informações sobre ativos intangíveis apresentadas nas demonstrações financeiras, nos relatórios de sustentabilidade, nos comentários da administração e em outros relatórios corporativos estejam alinhadas, de modo a garantir a conexão entre as rubricas das demonstrações financeiras, as divulgações não financeiras e, sempre que possível, as evidências de resultados concretos.

Desenvolver denominações padronizadas e requisitos mais claros de desagregação e divulgação: reduzir as inconsistências na terminologia utilizada para os ativos intangíveis relacionados à tecnologia, incluindo ativos de software, gastos com pesquisa e desenvolvimento e outros ativos intangíveis correlatos gerados internamente, para que os usuários possam comparar informações entre entidades e períodos de maneira mais confiável.

Desenvolver requisitos mais claros de desagregação e divulgação: possibilitar o fornecimento de informações mais claras, nas demonstrações financeiras primárias, sobre a natureza dos gastos com pesquisa e desenvolvimento — Research & Development (P&D) — e dos gastos relacionados a softwares. Exemplos de informações desagregadas poderiam incluir pesquisa aplicada; custos de desenvolvimento reconhecidos na demonstração do resultado ou no balanço patrimonial; infraestrutura de dados; desenvolvimento de modelos de software; e investimentos em capacidades de inteligência artificial.

Rir é o melhor remédio

 

Música deprimente

Empresas controlam gastos com IA

Alguns estão pensando que IA não tem custo. As empresas estão descobrindo que funcionários tem a tendência a consultar demais a ferramenta para resolver problemas do trabalho. O resultado é que o gasto com IA tem aumentado. Eis uma situação típica


A EY afirma que seu roteador de IA "invisível" ajudou a reduzir o consumo de tokens em até 60% [ Business Insider ]. A EY não permite que todas as consultas de funcionários sejam direcionadas diretamente para o modelo de IA mais inteligente disponível. A empresa, uma das quatro maiores do setor, introduziu um roteador "invisível" para ajudar a gerenciar seus gastos internos com IA, disse Dan Diasio, líder global de IA para consultoria da EY, ao Business Insider. Implementado globalmente em abril, o roteador fica por trás de algumas das ferramentas de IA especializadas da EY e atua como intermediário para direcionar os funcionários ao melhor modelo de IA para a tarefa em questão. O roteador, juntamente com estratégias de treinamento e governança, ajudou a reduzir o consumo de tokens em 60% desde sua implementação em abril, afirmou a EY.

IA e auditoria

Em um recente pedido de comentários públicos, o conselho perguntou aos participantes se deveria prosseguir com a definição de padrões e pesquisas nessa área. Espero que a pergunta tenha sido retórica, porque a resposta é um sonoro sim, e isso deveria ter começado ontem.


O conselho tomou algumas medidas em relação à IA. No mês passado, formou um conselho de modernização das inspeções para melhorar a qualidade das auditorias. Entrou em contato com empresas para discutir o uso de IA generativa em auditorias e monitorou o uso de IA pelos auditores. A ex-presidente do PCAOB, Erica Williams, enfatizou que a adoção da IA ​​não substitui o conhecimento e o julgamento do auditor.

É um bom começo, mas insuficiente, pois se trata basicamente de aplicar padrões existentes a um novo paradigma. O PCAOB precisa estabelecer diretrizes claras sobre o uso aceitável de IA antes que tenhamos uma reprovação em auditoria resultante do uso inadequado de IA. É provável que já tenhamos tido uma, mas ainda não sabemos.

Nos últimos dois anos, três das quatro maiores firmas de contabilidade globais tiveram que retratar relatórios devido a alucinações da IA. É apenas uma questão de tempo até que uma firma seja forçada a retratar um relatório de auditoria porque a IA alucinou evidências de auditoria ou porque os auditores não revisaram ou supervisionaram adequadamente os agentes de IA que coletavam e analisavam as evidências de auditoria.

Grifo meu. De Jack Castonguay, Bloomberg Tax, via aqui. Imagem aqui

03 agosto 2026

O caso de um Picasso rifado

A notícia de abril de 2026 estava guardada para uma postagem. O caso é bem interessante e pode ser usado em sala de aula ou pelos amantes da contabilidade que procuram um assunto para conversa. A notícia é a seguinte: uma fundação vinculada à pesquisa sobre Alzheimer fez uma rifa para arrecadar fundos, sorteando, entre os compradores dos bilhetes, um quadro, Cabeça de Mulher, do pintor Pablo Picasso.


O preço de cada bilhete era de 100 euros, e o quadro tinha um valor de avaliação de 1 milhão de euros. O valor arrecadado foi de 12 milhões de euros, deixando uma diferença de 11 milhões para uso da fundação. Os detalhes estão no texto de Bia Cardoso, publicado no Estado de S. Paulo em 16 de abril, ou disponível on-line aqui.

Vamos imaginar a contabilidade da fundação que promoveu a rifa, de um comprador de um bilhete e do comprador do bilhete vencedor. E considerar dois momentos distintos: antes e depois do sorteio.

Na fundação, antes do sorteio, o quadro fazia parte do ativo (1). O valor registrado poderia ser de 1 milhão de euros, mas é provável que fosse bem menor, já que poderia estar registrado pelo custo histórico. Ao longo do sorteio, a fundação teria que registrar a receita arrecadada com a rifa, tendo como contrapartida o débito em caixa. Quando do sorteio seria necessário dar baixa no quadro, retirando-o do ativo e registrando seu custo no resultado.

E quanto a um comprador do bilhete? Na sua contabilidade pessoal, haveria a possibilidade de um ganho potencial correspondente ao quadro. Aqui temos uma controvérsia teórica e normativa interessante. Fazendo uma conta simples, foram arrecadados 12 milhões de euros, e cada bilhete custava 100 euros. Foram vendidos 120 mil bilhetes, o que implica uma chance muito reduzida de ganhar o quadro. Eu entendo que, nesse caso, ao comprar o bilhete, deveria ser registrada uma saída de caixa e uma despesa; ou seja, ter o bilhete não configuraria um ativo para um comprador típico da rifa. Assim, após o sorteio, nada seria registrado, exceto pelo vencedor.

O vencedor deveria ter registrado, ao comprar o bilhete, a despesa e sua contrapartida, a saída de caixa. Mas, ao receber a notícia, o dono do bilhete passa a possuir um ativo de 1 milhão de euros. E qual seria a contrapartida? Algo na sua demonstração do resultado, que a contabilidade talvez chamasse de “ganho” ou de receita não recorrente.

(1) Rigorosamente, o quadro era da Opera Gallery, que recebeu 1 milhão do quadro. Fiz uma simplificação do caso aqui. 

31 julho 2026

Uma história dos doutores em contabilidade do Brasil

 Um levantamento feito pelo prof. Sandro, da UFSC, nas bases oficiais do governo, mostrou que entre 1962 e 2024 foram titulados 1162 doutores em contabilidade no Brasil. Os dez primeiros doutores foram, na ordem:

E para conseguir os primeiros dez doutores na área foram necessários 11 anos. Entre os orientadores, o campeão é o grande professor Eliseu Martins, com 32 orientações, seguido de Nelson Carvalho, com 28, e Sérgio de Iudícibus, com 24. Todos da universidade que fez a história da contabilidade no Brasil, a USP.
(O autor da postagem tem meras 18 orientações).
Por ano, temos a seguinte figura:

 É fantástico o crescimento da nossa área ao longo do tempo. Finalmente, em termos de instituição de ensino, a USP formou 390 doutores (ou um terço do total) (e sem contar a USP Ribeirão), seguido da UnB (117, mas esse número está inflado, já que considera também os doutores do programa Multi) e FURB (112, esse sim um valor de destaque, já que está no interior do país). 

Civilização pré-colonial na Amazônia


Eis o resumo, do artigo da Nature:

Numerosas estruturas geométricas de terra foram encontradas no sudoeste da Amazônia, constituindo evidências de uma civilização pré-colonial construtora de monumentos.Esse conhecimento tem contribuído para o debate sobre a história profunda e o urbanismo pré-colonial da Amazônia, seus contextos socioculturais e seu legado ambiental. As estimativas da extensão geográfica e do tamanho da população dessa civilização florestal permaneceram pouco precisas, pois a detecção dessas estruturas esteve quase exclusivamente limitada a áreas desmatadas, onde a vegetação não as oculta completamente. Neste estudo, utilizamos dados de LiDAR, capazes de atravessar a cobertura vegetal, coletados ao longo de 4.430 km de voo, para definir com maior precisão a distribuição geográfica e a quantidade dessas estruturas na região. Com base tanto nos dados já existentes quanto em nossa documentação por LiDAR, demonstramos que essa área cultural, por si só, contém tantas estruturas de terra quanto anteriormente se estimava para toda a Amazônia. Também propomos que a população total da região entre os anos 100 e 300 d.C. era de 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas. Caso resultados semelhantes sejam encontrados em outras partes da Amazônia, deverão ser reavaliadas a densidade populacional pré-colonial total e sua influência sobre os solos e a estrutura atual da floresta amazônica, sobre a biodiversidade e até mesmo sobre alguns modelos do clima global.

O local onde foram realizadas as descobertas é o Acre. E há cientistas de outros países, como Finlândia e Dinamarca, além de pesquisadores brasileiros