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26 março 2026

Condenação da Meta e Youtube em caso de vício em mídia social

Em um julgamento que ocorreu na Califórnia, um júri deliberou que a Meta e o Google prejudicaram a saúde de uma jovem com produtos viciantes que, como consequência, trouxeram problemas de saúde mental. O julgamento começou em fevereiro e apenas a deliberação levou uma semana. As empresas deverão pagar 3 milhões de dólares, sendo 70% desse valor de responsabilidade da Meta.


Uma das acusações recai sobre o recurso de rolagem infinita e as recomendações algorítmicas, que teriam causado ansiedade e depressão. Este é apenas um dos casos de processos existentes na justiça dos Estados Unidos. Antes do julgamento, o TikTok e o Snap chegaram a um acordo com a parte demandante.

Segundo um texto do Estadão, o argumento central é que o design das plataformas de mídias sociais pode ser considerado um "produto defeituoso", de responsabilidade das empresas. O texto destaca que, embora haja semelhanças com os processos judiciais contra as empresas de cigarro no passado, isso não significa que a decisão dos jurados representará uma mudança imediata no entendimento da justiça sobre o assunto. Em outras palavras: talvez seja cedo para considerar que qualquer pessoa que acione a justiça pedindo indenização vá vencer.

Lembro aqui que existe hoje um mecanismo na justiça federal dos Estados Unidos que "protege" as empresas de grandes falhas, "perdoando-as" através de acordos. Esse tipo de mecanismo pode ser usado, mais adiante, para blindar as grandes corporações tecnológicas. Trata-se do DPA — sigla para Deferred Prosecution Agreement (Acordo de Persecução Diferida ou Acordo de Acusação Diferida).

Em termos contábeis, eu diria que ainda é muito cedo para lançar provisões reconhecendo perdas futuras nesses processos judiciais, uma vez que o caminho na justiça é longo e, nem sempre, justo.

25 março 2026

IA e mercado de livros


Com a difusão dos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) entre 2022 e 2025, os lançamentos de novos livros triplicaram, levantando um questionamento sobre o impacto da IA na qualidade das obras. Desenvolvemos uma medida de uso baseada em avaliações que é comparável entre diferentes safras (vintages) de lançamentos e descobrimos que as safras do período de influxo da IA apresentam uma qualidade média inferior. No entanto, os 1.000 principais lançamentos mensais por categoria — embora não os 100 principais — apresentam uma qualidade superior à de antes; e esse efeito é maior em categorias com crescimento mais rápido de novos títulos. Autores que ingressaram no mercado desde o influxo dos LLMs produzem predominantemente trabalhos de baixa qualidade; por outro lado, a produção de alta qualidade dos autores que já haviam ingressado antes da era dos LLMs aumentou. Uma calibração de modelo logit aninhado (nested logit) mostra que a produção de livros aprimorada por LLMs poderia, em estado estacionário, elevar o excedente (surplus) que os consumidores derivam dos mercados de livros entre um quarto e metade do valor atual.

AI and the Quantity and Quality of Creative Products: Have LLMs Boosted Creation of Valuable Books? - Imke Reimers, Joel Waldfogel 

Imagem: Bíblia de Gutemberg, verbete Book Wikipedia 

Uma contabilidade existencial: (Re)centralizando a natureza


Eis o trecho final

Com o perdão de Heidegger: a essência da contabilidade para a natureza não é um relatório (account). Ou, pelo menos, uma pré-condição para recentralizar a natureza na pesquisa contábil é revelar a relação entre a consciência humana e a natureza na qual tais relatórios emergem. Ao rastrear a marginalização da natureza até as condições sob as quais ela é ocultada ou revelada, Marcuse e Heidegger oferecem diagnósticos pessimistas das patologias da era moderna, mas também, de forma mais otimista, destacam o potencial inimitável dos seres humanos de habitar o mundo de uma nova maneira.

A abordagem existencial que proponho busca recentralizar a natureza no pensamento acadêmico contábil, articulando ideais tanto críticos quanto construtivos. O principal argumento crítico afirma que a contabilidade é, ao mesmo tempo, mais e menos cúmplice da degradação ambiental do que sugere a literatura fundamental anterior. Como tecnologia moderna par excellence, a contabilidade é cúmplice de modos de ser no mundo que inscrevem lógicas humanas ou, mais sutilmente, prejudicam a atenção aos processos naturais. Ao mesmo tempo, essa perspectiva existencial implica que os modos tecnológicos de ser no mundo são mais profundos do que as práticas contábeis; portanto, reformar apenas as práticas contábeis é insuficiente para enfrentar as crises ecológicas contemporâneas.

De forma mais construtiva, proponho um papel essencial para a pesquisa em contabilidade crítica: lutar por espaço para que outros modos de ser no mundo surjam, circunscrevendo as lógicas contábeis. Adaptando a terminologia de Hines (1991), esta abordagem existencial "recusa-se a falar" da natureza apenas na linguagem contábil, para que outras vozes possam ser ouvidas.

 

Queda do Sora

Entre os produtos correlatos fornecidos pela OpenAI, o Sora deveria ser um modelo para gerar clipes de vídeos curtos com base em prompts. Ele também poderia ser usado para estender vídeos curtos existentes. A OpenAI começou a fornecer exemplos de produtos gerados pelo Sora ainda em fevereiro de 2024. No entanto, ontem, a OpenAI — empresa criadora do ChatGPT — anunciou que o aplicativo e a API do Sora seriam desligados.

Para evitar o uso inadequado do Sora, havia uma marca-d'água para prevenir o uso indevido, mas, uma semana após o lançamento da versão 2 do modelo, já existiam programas de terceiros disponíveis para remover essa proteção. Esse não foi o maior dos problemas. Vários vídeos gerados apresentaram personagens protegidos por direitos autorais; um deles, por exemplo, utilizava o estilo do Studio Ghibli, famoso pelo filme Princesa Mononoke. Algumas personalidades falecidas, como Robin Williams, também foram alvo de vídeos falsos (deepfakes).


Diante da tecnologia inicialmente entregue pela OpenAI, a Walt Disney firmou uma associação com a empresa para permitir a criação de vídeos curtos com mais de 200 personagens históricos da marca. Existia a esperança de uma nova era no cinema, movida pela IA, com custos de produção reduzidos. A Disney tinha a pretensão de se tornar uma grande cliente da OpenAI. O anúncio de ontem, contudo, é um sinal de que o Sora ainda está distante de entregar um produto razoável. Naturalmente, os investimentos realizados serão baixados como prejuízo no resultado das demonstrações contábeis das empresas envolvidas.

Imagem criada pelo Gemini, a partir do texto acima.  

IA como investimento


A IA como uma estratégia de investimento financeiro deve levar em consideração não somente a precisão do algoritmo, mas o impacto sobre a eficiência e lucro da organização. Aqui um texto que trata da mensuração do valor da IA e a seguir um trecho: 

Embora a eficiência seja uma fonte importante de valor da IA, ela é apenas parte do cenário. Muitos sistemas de IA bem-sucedidos não substituem primariamente o trabalho humano [...] Em vez disso, eles atualizam fluxos de trabalho existentes, amplificam as capacidades humanas ou possibilitam oportunidades de negócios inteiramente novas. 

24 março 2026

Especialista e previsão

 O resumo

O apoio público a intervenções políticas depende das crenças dos cidadãos sobre os seus efeitos prováveis. Examinamos como os indivíduos formam tais crenças ao estudar suas previsões de resultados experimentais em um cenário relevante para políticas públicas, e por que suas previsões diferem dos referenciais dos especialistas. Obtivemos previsões de 127 economistas profissionais e de uma amostra representativa de 6.200 famílias alemãs sobre um experimento comportamental de larga escala em política educacional (N=3.133). Os não especialistas preveem tanto os resultados médios quanto os efeitos do tratamento com muito menos precisão do que os especialistas. A precisão das previsões melhora com priors calibrados, esforço autorrelatado e o uso de raciocínio estruturado, mas permanece bem abaixo dos níveis dos especialistas. Demonstramos que características de design escaláveis — incluindo o fornecimento de âncoras numéricas bem calibradas e incentivos monetários para aumentar o esforço — melhoram as previsões dos não especialistas, com efeitos de magnitude comparável ao ensino superior ou ao raciocínio estruturado. Nossas descobertas têm implicações importantes para reduzir a 'lacuna de expertise' no discurso público. 

Imagem: Verbete Prediction, Wikipedia

Plágio, ciência ruim e a recusa em reconhecer o problema: o caso da Management Science


Alguns meses atrás, publicamos um post: 'Este artigo na Management Science foi citado mais de 6.000 vezes. Executivos de Wall Street, altos funcionários do governo e até um ex-vice-presidente dos EUA já o referenciaram. Ele possui falhas fatais, e a comunidade acadêmica se recusa a fazer algo a respeito', que tratava de um artigo fatalmente falho, porém muito influente, na Management Science.

O artigo em questão afirmava ter descoberto que 'empresas de alta sustentabilidade superam significativamente suas contrapartes no longo prazo, tanto em termos de mercado de ações quanto de desempenho contábil'. Eu conjecturo que uma das razões para o grande sucesso do artigo foi o fato de ele promover uma mensagem reconfortante que seria popular em todo o espectro político: para a esquerda, é uma evidência a favor da sustentabilidade ambiental e social; para a direita, é um exemplo do sucesso do livre mercado, sugerindo que, se você se preocupa com a sustentabilidade, pode obtê-la sem regulamentação governamental; e, para o centro, é uma mensagem de que o sistema funciona. Ele se encaixa perfeitamente na ideologia presunçosa de base das escolas de negócios de que as empresas prosperam ao fazer o bem.

Discussão de Gelman sobre a dificuldade de inibir casos de plágio. O artigo em questão já foi citado quase 7 mil vezes, segundo o Scholar, e teve uma influência muito expressiva. 

Infelizmente, o método descrito no artigo não é o método que os autores realmente utilizaram. Os autores finalmente reconheceram isso em setembro de 2025, após dois anos de pressão. No entanto, eles se recusaram a enviar uma errata.

Entrei em contato com o periódico, Management Science, mas as políticas deles permitem apenas que os autores solicitem correções. Eles me permitiram enviar um comentário para revisão, já que julgaram que os autores não estavam respondendo, mas isso deve passar por um longo processo de análise.

Também entrei em contato com Escritórios de Integridade em Pesquisa, pois acredito que isso constitua uma violação contínua: os autores estão se recusando conscientemente a corrigir um erro admitido em seu estudo.

  • London Business School (Ioannou) alega que não há violação porque ele não realizou a análise. (Para mim, isso parece irrelevante para a questão de corrigir um erro de relato).

  • Harvard Business School (empregadora de Serafeim) recusou-se a divulgar a existência ou o resultado de qualquer revisão interna.

  • Oxford (onde Eccles está afiliado atualmente) alega que Harvard é responsável pelas ações de Eccles, já que a pesquisa ocorreu quando ele estava na HBS.

  • Entrei em contato com o UK RIO, mas eles dizem que não têm poder de atuação.

     O texto prossegue com citações para Dan Ariely e Freakonomics. E outros. Uma boa leitura