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01 abril 2026

IFRS 20 e a data de implementação


A EFRAG solicitou ao IASB o adiamento de um ano na vigência da futura IFRS 20 sobre regulação tarifária, de 1º de janeiro de 2029 para 2030, citando dificuldades de preparação por parte das empresas. O IASB havia debatido datas entre 2028 e 2029, equilibrando urgência e qualidade de implementação. Com divisão igual entre os membros, o presidente decidiu por mais prazo, visando garantir adoção adequada e consistente entre jurisdições. 

Recentemente a norma foi discutida em um webcast, mas a solicitação do Efrag tem grande chance de ser aprovada. 

Aprimoramento das normas SASB


Ontem, ao comentar sobre o relatório de 2025 da Fundação IFRS, afirmei que o ISSB fez pouco desde que foi criado. É bem verdade que a entidade está "aprimorando" as normas SASB para ajudar na aplicação da IFRS S1. Anteriormente, nove normas SASB tiveram a minuta divulgada em julho de 2025. E há poucos dias, mais três normas SASB foram disponibilizadas para discussão: ‘Agricultural Products’, ‘Meat, Poultry & Dairy’ e ‘Electric Utilities & Power Generators’. O período para comentários se encerra em 24 de julho de 2026.

Imagem aqui 

Todos modelos são (estão) errados, mas alguns são uteis

 


Uma das citações de um dos meus estatísticos favoritos é a observação do estatístico britânico George Box de que:

“Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis.”

— George Box

O ponto dele, como eu entendo, é simplesmente que qualquer modelo é, por natureza, uma simplificação e uma aproximação da realidade. Ele nunca conseguirá capturar a realidade em sua totalidade.

Isso se aplica à sua fórmula de receitas e despesas esperadas que você arrasta pelas células de uma planilha. E se aplica também aos nossos maiores e extremamente complexos modelos meteorológicos e climáticos, com milhões de variáveis e pontos de dados. Eles nunca podem ser completos. E, embora devamos ter isso em mente ao considerar as limitações de todos os nossos modelos, previsões, estimativas e explicações, isso não impede que eles sejam, muitas vezes, úteis.

Embora seja possível — e muitas pessoas o fazem — argumentar contra a ideia de que modelos são “errados”, eu gosto dessa citação porque ela me lembra de ser humilde e devidamente cético em relação a qualquer modelo que eu leia ou construa. Embora sua precisão varie enormemente, todos são falíveis.

Ela também me lembra que todo modelo tem um propósito — enfatizando certos aspectos da realidade e ignorando outros.

Sobre Mapas

Embora um mapa não seja um modelo no sentido estatístico que George Box provavelmente tinha em mente ao formular essa frase, considero que mapas são um ótimo exemplo de foco seletivo.

No esboço, é possível ver a complexidade caótica do mundo, o mapa tradicional em que edifícios e ruas se tornam marcas no papel, e a simplificação das paradas sequenciais de uma linha de ônibus.

Em outros casos, os mapas podem focar em:

  • Geografia humana: ruas, edifícios, lojas

  • Atrações turísticas

  • Relevo, elevação e características geográficas

  • Cursos d’água e bacias hidrográficas

  • Trânsito e tempos de deslocamento

  • Fronteiras políticas

E muitos outros aspectos. Todos são modelos que representam alguns elementos com mais precisão em detrimento de outros. Como diz o ditado: “O mapa não é o território.”

Outros Exemplos

Alguns outros exemplos de modelos simplificados, mas ainda assim úteis:

  • Clima: imagine tentar condensar toda a complexidade do clima de um dia no Reino Unido em um único ícone. Não é simples. Ainda assim, isso pode ajudar você a decidir se deve levar um guarda-chuva ou adiar um passeio de barco.
  • Projeção de Mercator: útil para navegadores, mas altamente distorcida em altas latitudes.
  • Regra de Naismith: para estimar o tempo de caminhada em montanhas com base na distância e na elevação.
  • Desenho ortográfico de uma casa ou produto: pode destacar aspectos relevantes para a construção — fiação, encanamento, integridade estrutural — enquanto ignora texturas, cores, imperfeições ou custo.
  • Modelo atômico de Bohr: elétrons orbitando como planetas ao redor do núcleo. Imperfeito, mas útil.
  • Distribuições normais: como as observadas na altura das pessoas, raramente são perfeitamente normais, mas ainda assim podem ser aproximações úteis.
  • Curvas de oferta e demanda: aproximam o comportamento de compradores e fornecedores, assumindo racionalidade e disponibilidade de informação.
  • Mapa do metrô de Londres: simplificado em linhas perpendiculares e angulares, facilita a navegação no metrô, mas pode distorcer a percepção das distâncias a pé.

Um modelo é uma ferramenta, e sua utilidade depende do que você está tentando fazer. Se você está traçando rotas em um mapa plano, a projeção de Mercator é extremamente útil. Se quer entender o tamanho da Groenlândia em comparação com outros países, ela pode ser enganosa.

Box defende o uso de modelos econômicos (no sentido de simples), que nos permitam analisar a prática mantendo a consciência de onde eles podem estar significativamente errados.

Não me escapa que eu apresento muitos modelos mais simples do que a realidade no Sketchplanations. Acho que isso acontece porque, quando reconhecemos conscientemente suas imperfeições e limitações, um bom modelo — assim como um bom framework — pode ser extremamente útil. Como disse Larry Keeley: “Construir um bom framework é como cortar cubos a partir da névoa.”

Uma pequena nota: o GPT traduziu "todos modelos estão" mas confesso que fiquei na dúvida se o melhor não seria "são".  O texto original pode ser obtido aqui, no Sketchplanations.

9% do New York Times foram gerados pela IA

Eis um trecho:

A autora da coluna [Modern Love, do New York Times], Kate Gilgan, disse à revista que não havia copiado e colado trechos de um modelo de IA, mas que “utilizou IA como ferramenta”, incluindo chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini, para buscar “inspiração, orientação e correção”.

“Usei a IA como um editor colaborativo, e não como um gerador de conteúdo”, insistiu Gilgan.

(...) E a escala pode ser significativa. Controvérsias como a envolvendo a coluna de Gilgan levaram vários pesquisadores de IA a investigar quanto conteúdo gerado por IA já se infiltrou nos jornais americanos.

Utilizando uma ferramenta de detecção de IA da startup Pangram Labs, seus achados, publicados como um estudo preliminar em outubro, são preocupantes. Eles sugerem que 9% dos artigos recém-publicados são parcial ou totalmente gerados por IA, principalmente em veículos menores e locais.
 

É preciso tomar muito cuidado com a estimativa, uma vez que as ferramentas de detecção de uso de IA cometem falhas. Mas o fato da famosa coluna Modern Love ser escrita com ajuda já é uma reconhecimento importante. 

31 março 2026

Fundação IFRS e doações brasileiras

Eis o volume de doações oriundos do Brasil. Não é pequena demais? Qual o sentido da falta de apoio do Conselho Federal de Contabilidade?
 

Fundação IFRS: Salários em questão

A gestão de uma entidade sem fins lucrativos que dita as regras do capitalismo global exige um equilíbrio delicado entre austeridade e a necessidade de atrair talentos de primeira linha. Nas demonstrações financeiras de 2025, um ponto que merece ser considerado é o custo da cúpula diretiva em um momento de cortes operacionais.

Em 2025, a remuneração dos líderes da Fundação permaneceu em patamares elevados. O Chair do IASB (Andreas Barckow) e o Chair do ISSB (Emmanuel Faber) receberam, cada um, aproximadamente £610.500 anuais. Somando-se a eles os Vice-Chairs (cerca de £523.500 cada) e os membros dos Boards em tempo integral (£485.400), o gasto total com da direção atingiu £12,3 milhões. É bom lembrar que a receita foi de 51 milhões. 

Para o mercado de executivos de alto padrão em Londres ou Nova York, esses valores podem parecer competitivos. Entretanto, para uma fundação que sobrevive de doações e que reduziu seu quadro de funcionários de 369 para 321 pessoas em um ano para transformar um déficit em superávit, esses salários representam uma parcela rígida e significativa dos custos totais de remuneração.

A escolha de sedes reflete diretamente na pressão salarial. Ao manter sua base principal em Londres, uma das cidades mais caras do mundo, a Fundação IFRS se obriga a pagar salários inflacionados pelo custo de vida local. O contraste com o seu equivalente americano, o FASB, é notável: sediado em Norwalk, Connecticut, o órgão dos EUA opera em uma cidade menor, com custos operacionais e de vida inferiores aos de um centro financeiro global.

Além do custo fixo em Londres, o ISSB trouxe uma nova complexidade financeira: o compromisso de manter escritórios em locais como Frankfurt, Montreal, Pequim e Tóquio. Embora essa presença global seja politicamente necessária, ela cria uma estrutura cara.

O relatório confirma que a Fundação pretende manter a disciplina de custos, e há discussões sobre a otimização do tamanho dos Boards para o futuro, visando maior agilidade. Contudo, enquanto a cúpula mantiver salários de padrão corporativo e uma estrutura geográfica tão ampla, o desafio será provar aos doadores que cada libra investida está indo para a produção técnica, e não apenas para sustentar uma máquina administrativa pesada.

Fundação IFRS: Fit mesmo?

A publicação das demonstrações financeiras de 2025 da Fundação IFRS traz, à primeira vista, números que inspiram confiança. O superávit de £1,5 milhão e a robusta posição de caixa de £43,6 milhões parece indicar uma instituição financeiramente saudável. Mais do que isso: o relatório foi produzido sob o pressuposto da continuidade operacional (going concern), endossado sem ressalvas pelo parecer dos auditores independentes. O tom da gestão é de otimismo, celebrando as conquistas.

Contudo, o otimismo de curto prazo não deve ocultar os desafios de médio e longo prazo. Recentemente, autoridades reguladoras nos EUA insinuaram que a questão financeira da Fundação — e especificamente do seu braço de sustentabilidade, o ISSB — exige atenção.

É preciso contextualizar aqui: o ISSB nasceu sob um modelo de seed funding (financiamento semente), garantido por doadores e jurisdições para os primeiros anos de operação. Esse financiamento está chegando ao fim. Embora o relatório destaque a conquista de novas promessas, sendo "prudente", como gosta de escrever a Fundação, podemos afirmar que isso não garante o futuro do projeto ISSB.

O ISSB precisa provar que pode ser sustentável quanto o IASB. Até agora, o conselho oriundo da COP entregou duas normas principais (IFRS S1 e S2). Embora o relatório aponte trabalhos em andamento, a produção normativa — que gera receita por meio de licenciamento de dados e publicações — ainda é tímida se comparada ao IASB.

A "vibe" da sustentabilidade, que impulsionou o mercado há poucos anos, enfrenta hoje resistência. Isso expõe uma vulnerabilidade que sempre esteve presente no orçamento da Fundação: a alta concentração de doadores. Enquanto a Europa continua sendo o aliado de peso, parceiros como China e Japão mantêm uma amizade cordial, porém cautelosa, e os EUA preservam uma distância respeitosa que impede uma adesão financeira em larga escala. Os outros países, como o Brasil, são, sem qualquer pudor, "caronas" do esforço realizado pela Fundação.

Há o problema da rigidez das despesas. Apesar dos cortes recentes que reduziram o quadro para 321 funcionários, a Fundação quase dobrou de tamanho nos últimos anos para acomodar a nova estrutura e em diferentes lugares. Grande parte dessas despesas é fixa, composta por salários de alto nível da cúpula e especialistas técnicos.

Sem um novo aliado de peso ou uma adesão global massiva que transforme o ISSB em uma máquina de receita recorrente, a Fundação IFRS terá que equilibrar uma estrutura de custos pesada com um financiamento que ainda depende da boa vontade de poucos. A continuidade imediata está garantida; a sustentabilidade do modelo, no entanto, permanece em questão.