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23 fevereiro 2026

Uma grande surpresa em um tanque velho de guerra


A notícia é de 2017, mas voltou a circular como algo novo (aqui e aqui). Mas é um caso contábil interessante e desafiador.

Um britânico comprou no eBay um tanque de guerra do Iraque. Ao abrir o compartimento de combustível, ele encontrou cinco barras de ouro escondidas, com o valor estimado de 2 milhões de libras. O ouro foi entregue às autoridades britânicas para investigação. 

As barras de ouro correspondem a um ativo oculto. Ao comprar o tanque, o britânico comprou todo seu conteúdo, mas fica a dúvida se isso inclui o ouro.  Se o ouro for considerado do comprador, é um ganho, por ser algo inesperado. O custo de aquisição do tanque, que corresponde ao valor histórico, distancia do valor real. Há aqui uma discussão interessante entre preço histórico e preço justo. 

Mercado de aposta expande para questões geopolíticas


O mercado de apostas está crescendo e incorporando temas geopolíticos, constatou um texto da Rest of World. A principal plataforma de apostas, a Polymarket, mostra isso, conforme o gráfico da postagem. Se inicialmente era interessante consultar o site para saber a chance do Brasil ganhar a Copa do Mundo de futebol (9% de chance, hoje), hoje eventos como chance do Banco Central reduzir a taxa de juros em março (94%), um ministro do STF ser removido do cargo antes de 2027 (21%), Lula ser reeleito (53%) ou a inflação de 2026 estar entre 3,5 a 4% (49%) predominam. 

Em muitos casos, o contador precisa de dados objetivos e fontes razoáveis para sustentar suas previsões. Sabendo que a taxa de juros irá diminuir em março, isso pode alterar os valores usados no teste de impairment, por exemplo. Mesmo não usando os dados, é legal dar uma olhada. Agora o Polymarket está dizendo que a chance do Clube Atlético Mineiro ganhar do Grêmio na quarta, dia 25, é somente 29%, o mesmo percentual para o empate. 

22 fevereiro 2026

Deepfake do bem

A notícia é da Índia: 


Empreendedores estão recriando parentes falecidos ou ausentes para vídeos de casamento e outras ocasiões.

A indústria da “tecnologia do luto” tem benefícios, mas suas implicações de longo prazo ainda não estão claras.

A Índia elaborou projetos de lei para conter a enxurrada de deepfakes, que são usados majoritariamente para golpes e desinformação. 

Fei-Fei Li


Em uma época onde imigrantes são vistos de forma negativa, a história de Fei-Fei Li é impactante. Chegou nos Estados Unidos com 15 anos, sem falar inglês, com pais trabalhando em restaurantes. Ela consegue um emprego lavando pratos. É aprovada em Princeton, bolsa integral, e durante sete anos passava a semana no departamento de física e os finais de semana trabalhando na lavanderia que a família tinha aberto. Fez doutorado na Caltech. 

Em 2007, ela lidera uma equipe responsável pelo ImageNet, um grande conjunto de dados de visão computacional. Em 2012, a equipe rodou uma rede neural naquele conjunto de dados e reduziu pela metade a taxa de erro existente. Alguns consideram que foi o início do deep learning. 

Em 2024 funda a World Labs. Em quatro meses, captação de US$ 230 milhões e valuation de US$ 1 bilhão. Hoje, valuation em torno de US$ 5 bilhões.

Seu novo modelo, Marble, gera ambientes 3D persistentes a partir de texto ou imagens. Diferentemente dos geradores de vídeo que simulam profundidade quadro a quadro, o Marble cria espaço geométrico real, no qual os objetos permanecem onde você os deixou. (....)

De lavanderia a ImageNet e a uma empresa de inteligência espacial avaliada em US$ 5 bilhões. Fei-Fei Li fez agora duas apostas que o restante do campo considerava prematuras e grandes demais. A primeira criou a visão computacional moderna. A segunda tenta dar às máquinas a capacidade de compreender a física.

Se ela estiver certa novamente, este é o último grande desbloqueio antes que a IA incorporada realmente funcione.

 

Um caso recente de falha de comunicação contábil


Recentemente a imprensa anunciou que o banco público Banco do Brasil teve um aumento no índice de atraso acima de 90 dias, para 5,17%. A notícia inicial foi que a empresa responsável por uma dívida de 3,6 bilhões de reais seria a Braskem.  Mas a Braskem foi a público informar que não tinha dívidas com o banco estatal. Logo a seguir, descobriu-se que seria a Novonor a responsável pelo aumento da inadimplência.

Tudo isso parece indicar um problema de transparência e clareza na divulgação. Em contextos de análise de risco e contabilidade financeira, é crucial que os relatórios — em especial notas explicativas e comunicados aos investidores — deixem claro quem é o devedor responsável por um aumento tão substancial. 

21 fevereiro 2026

Jogos Olímpicos e recursos do governo


Fiquei imaginando replicar isso no Brasil:  

Os Jogos Olímpicos são um dos eventos esportivos mais amplamente seguidos e visíveis no mundo. Os governos alocam recursos para as Federações Esportivas em busca de resultados competitivos que dependem de uma combinação de fatores incertos. Este estudo aplica o índice Färe-Primont (FPI) pela primeira vez no campo do esporte para estimar a produtividade e a eficiência e analisar os resultados da participação das Federações Esportivas Espanholas nas últimas quatro edições dos Jogos Olímpicos (2008-2021). Procura também identificar a existência de padrões comportamentais nas Federações Esportivas Espanholas que fazem o melhor uso dos recursos disponíveis. Os resultados do estudo sugerem que a estrutura das fontes de financiamento, o tamanho dos órgãos governamentais e o período de tempo que os FSS competem (idade) são fatores que influenciam sua eficiência e produtividade. 

No caso de jogos olímpicos, eu tenho recursos alocados em esportes e uma medida objetiva de desempenho, no caso medalhas. Mas seria possível pensar nisso em outras situações? 

Guevara-Pérez, J. C., Le Clech, N. A., Martín Vallespin, E., & Urdaneta-Camacho, R. (2026). Evaluation of Spanish Olympic Federation Performance Using the Färe-Primont Index. Sage Open, 16(1). 

Língua e conteúdo

Para pensar 

Das cerca de 7.000 línguas globais, apenas algumas prosperam digitalmente, sendo que meras 10 línguas representam 82% de todo o conteúdo da internet. Essa enorme disparidade de recursos é o principal desafio para a moderação de conteúdo em idiomas que não o inglês. Antes do surgimento dos grandes modelos de linguagem (LLMs), ferramentas de moderação e revisores humanos já enfrentavam dificuldades, muitas vezes falhando em capturar a complexidade linguística da transliteração, da alternância de códigos (code-switching) e do sofisticado algospeak, comum em conteúdos não ingleses.

A ascensão dos LLMs apresenta um paradoxo. Embora esses sistemas sejam frequentemente celebrados como independentes de idioma, pesquisas mostram que são construídos sobre uma base que favorece fortemente o inglês e alguns outros idiomas dominantes, criando uma espécie de câmara de eco tipológica. Isso gera um ciclo de “os pobres ficam mais pobres” no espaço digital. Idiomas com muitos recursos recebem as melhores ferramentas de moderação, os chatbots mais precisos, os filtros mais seguros e dominam rankings de desempenho. Enquanto isso, comunidades que falam línguas de “baixo recurso” ficam com ferramentas que não entendem suas gírias, nuances culturais ou riscos de segurança.


O tom do texto é pessimista. Mas eu vejo algo bastante positivo, pois os modelos LLMs permite um acesso rápido ao que está ocorrendo no mundo. Eu consigo ler um jornal italiano, por exemplo, sem precisar saber italiano. E um estrangeiro pode ler o que escrevemos por aqui, sem necessitar de anos para aprender o português. Esse ponto não pode ser esquecido.

Mas a crítica pode ser pertinente em algumas situações. Já tive a experiência de solicitar algo para IA e claramente sua resposta passou, primeiro, pelo inglês. Ocorre com frequência quando peço ajuda em aspectos tecnológicos, como resolver problemas no Linux. Há também aspectos culturais e novamente citando um exemplo que tive, em um determinado momento o GPT respondeu uma pergunta minha e usou o sinal de ok, que na nossa cultura tem outro significado.