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22 fevereiro 2026

Deepfake do bem

A notícia é da Índia: 


Empreendedores estão recriando parentes falecidos ou ausentes para vídeos de casamento e outras ocasiões.

A indústria da “tecnologia do luto” tem benefícios, mas suas implicações de longo prazo ainda não estão claras.

A Índia elaborou projetos de lei para conter a enxurrada de deepfakes, que são usados majoritariamente para golpes e desinformação. 

Fei-Fei Li


Em uma época onde imigrantes são vistos de forma negativa, a história de Fei-Fei Li é impactante. Chegou nos Estados Unidos com 15 anos, sem falar inglês, com pais trabalhando em restaurantes. Ela consegue um emprego lavando pratos. É aprovada em Princeton, bolsa integral, e durante sete anos passava a semana no departamento de física e os finais de semana trabalhando na lavanderia que a família tinha aberto. Fez doutorado na Caltech. 

Em 2007, ela lidera uma equipe responsável pelo ImageNet, um grande conjunto de dados de visão computacional. Em 2012, a equipe rodou uma rede neural naquele conjunto de dados e reduziu pela metade a taxa de erro existente. Alguns consideram que foi o início do deep learning. 

Em 2024 funda a World Labs. Em quatro meses, captação de US$ 230 milhões e valuation de US$ 1 bilhão. Hoje, valuation em torno de US$ 5 bilhões.

Seu novo modelo, Marble, gera ambientes 3D persistentes a partir de texto ou imagens. Diferentemente dos geradores de vídeo que simulam profundidade quadro a quadro, o Marble cria espaço geométrico real, no qual os objetos permanecem onde você os deixou. (....)

De lavanderia a ImageNet e a uma empresa de inteligência espacial avaliada em US$ 5 bilhões. Fei-Fei Li fez agora duas apostas que o restante do campo considerava prematuras e grandes demais. A primeira criou a visão computacional moderna. A segunda tenta dar às máquinas a capacidade de compreender a física.

Se ela estiver certa novamente, este é o último grande desbloqueio antes que a IA incorporada realmente funcione.

 

Um caso recente de falha de comunicação contábil


Recentemente a imprensa anunciou que o banco público Banco do Brasil teve um aumento no índice de atraso acima de 90 dias, para 5,17%. A notícia inicial foi que a empresa responsável por uma dívida de 3,6 bilhões de reais seria a Braskem.  Mas a Braskem foi a público informar que não tinha dívidas com o banco estatal. Logo a seguir, descobriu-se que seria a Novonor a responsável pelo aumento da inadimplência.

Tudo isso parece indicar um problema de transparência e clareza na divulgação. Em contextos de análise de risco e contabilidade financeira, é crucial que os relatórios — em especial notas explicativas e comunicados aos investidores — deixem claro quem é o devedor responsável por um aumento tão substancial. 

21 fevereiro 2026

Jogos Olímpicos e recursos do governo


Fiquei imaginando replicar isso no Brasil:  

Os Jogos Olímpicos são um dos eventos esportivos mais amplamente seguidos e visíveis no mundo. Os governos alocam recursos para as Federações Esportivas em busca de resultados competitivos que dependem de uma combinação de fatores incertos. Este estudo aplica o índice Färe-Primont (FPI) pela primeira vez no campo do esporte para estimar a produtividade e a eficiência e analisar os resultados da participação das Federações Esportivas Espanholas nas últimas quatro edições dos Jogos Olímpicos (2008-2021). Procura também identificar a existência de padrões comportamentais nas Federações Esportivas Espanholas que fazem o melhor uso dos recursos disponíveis. Os resultados do estudo sugerem que a estrutura das fontes de financiamento, o tamanho dos órgãos governamentais e o período de tempo que os FSS competem (idade) são fatores que influenciam sua eficiência e produtividade. 

No caso de jogos olímpicos, eu tenho recursos alocados em esportes e uma medida objetiva de desempenho, no caso medalhas. Mas seria possível pensar nisso em outras situações? 

Guevara-Pérez, J. C., Le Clech, N. A., Martín Vallespin, E., & Urdaneta-Camacho, R. (2026). Evaluation of Spanish Olympic Federation Performance Using the Färe-Primont Index. Sage Open, 16(1). 

Língua e conteúdo

Para pensar 

Das cerca de 7.000 línguas globais, apenas algumas prosperam digitalmente, sendo que meras 10 línguas representam 82% de todo o conteúdo da internet. Essa enorme disparidade de recursos é o principal desafio para a moderação de conteúdo em idiomas que não o inglês. Antes do surgimento dos grandes modelos de linguagem (LLMs), ferramentas de moderação e revisores humanos já enfrentavam dificuldades, muitas vezes falhando em capturar a complexidade linguística da transliteração, da alternância de códigos (code-switching) e do sofisticado algospeak, comum em conteúdos não ingleses.

A ascensão dos LLMs apresenta um paradoxo. Embora esses sistemas sejam frequentemente celebrados como independentes de idioma, pesquisas mostram que são construídos sobre uma base que favorece fortemente o inglês e alguns outros idiomas dominantes, criando uma espécie de câmara de eco tipológica. Isso gera um ciclo de “os pobres ficam mais pobres” no espaço digital. Idiomas com muitos recursos recebem as melhores ferramentas de moderação, os chatbots mais precisos, os filtros mais seguros e dominam rankings de desempenho. Enquanto isso, comunidades que falam línguas de “baixo recurso” ficam com ferramentas que não entendem suas gírias, nuances culturais ou riscos de segurança.


O tom do texto é pessimista. Mas eu vejo algo bastante positivo, pois os modelos LLMs permite um acesso rápido ao que está ocorrendo no mundo. Eu consigo ler um jornal italiano, por exemplo, sem precisar saber italiano. E um estrangeiro pode ler o que escrevemos por aqui, sem necessitar de anos para aprender o português. Esse ponto não pode ser esquecido.

Mas a crítica pode ser pertinente em algumas situações. Já tive a experiência de solicitar algo para IA e claramente sua resposta passou, primeiro, pelo inglês. Ocorre com frequência quando peço ajuda em aspectos tecnológicos, como resolver problemas no Linux. Há também aspectos culturais e novamente citando um exemplo que tive, em um determinado momento o GPT respondeu uma pergunta minha e usou o sinal de ok, que na nossa cultura tem outro significado.  

Macaco de 1,3 milhão que virou 12 mil


Lembram das NFTs? Isso apareceu logo após o início da pandemia e trata-se da sigla para tokens não fungíveis. Se o leitor acha estranho, é porque realmente foi estranho. Seriam “ativos” baseados em blockchain, sob a forma de imagens de avatares ridículos, vendidos para celebridades e outras pessoas sem noção. O Bored Ape Yacht Club, da Yuga Labs, chegou a ter uma cópia vendida para a celebridade Justin Bieber por 1,3 milhão de dólares.

Quatro anos depois, o macaco comprado por Bieber vale algo em torno de 12 mil dólares — um enorme prejuízo. No auge da febre das NFTs, a brincadeira chegou a ser considerada um valor mobiliário sem registro e foi investigada pela SEC, a reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos.

Em 2026 temos que as NFTs não são valores mobiliários e talvez nem sejam ativos. A empresa Yuga Labs tenta sobreviver, com planos de abrir um espaço físico em Miami.

O proprietário de um NFT pode registrar no balanço? Uma estrutura de governança de uma empresa séria não deveria deixar. Apesar de existir um valor de mercado, é improvável que haja uma nova febre para comprar esses itens, ficando mais como uma curiosidade do que algo que possa ajudar uma empresa a gerar riqueza no futuro. Talvez até satisfaça a definição de ativo, possa ter uma mensuração possível, mas é um atestado de burrice da gestão da empresa.

 

20 fevereiro 2026

Saltadores de esqui, genitais e incentivos


A leitura número um do comportamento humano é que as pessoas reagem aos incentivos. E podemos ver isso nas competições esportivas. 

Agora estamos vendo os Jogos Olímpicos de Inverno, na Itália, que mostrou uma "trapaça" no curling ou uma discutível nota na patinação artística, dada por um juiz, favorecendo competidor de seu país. Mas achei muito mais curioso a prática de saltadores de esqui, que estariam injetando ácido hialurônico nos seus genitais, para melhorar o desempenho. 

O jornal alemão Bild, via aqui, trouxe essa informação e também a explicação: a injeção traz uma vantagem aerodinâmica, pois aumenta o tamanho do pênis, ampliando a área do traje. Isso traria maior sustentação ao saltador. Parece brincadeira, mas a agência que cuida do doping, a WADA, resolveu investigar. 

Não seria a primeira vez que o aumento da área do traje foi usado em competições: no ano passado, a equipe da Noruega estava adicionando uma costura na região da virilha para aumentar a área do traje. O efeito seria o mesmo, melhorando a aerodinâmica do traje.  

Há um estudo científico que mostra que esse aumento tem realmente impacto sobre o desempenho: cada aumento de dois centímetros na circunferência do traje, aumenta a sustentação em 4% ou 60 centímetros adicionais em um salto.  

Se você achava que somente os gestores de uma empresa eram movidos a base de incentivos, mude de ideia. Muitas empresas remuneram seus funcionários com base em medidas contábeis. Por mais regulada que seja a medida, isso provoca gerenciamento de resultado. Os atletas olímpicos também sabem disso.